Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

a viagem - a casa

Acabo de publicar o meu primeiro livro de poesia: VASCONCELOS, Dinarte, 2012, «a viagem - a casa», Funchal, Ed. Autor, 80 pp., ISBN: 978-989-20-3025-8.
É uma edição de autor; custa a módica quantia de 10 €; e alberga 94 poemas.
Conto com o vosso interesse!
[Os interessados poderão solicitá-lo através do endereço de email ou da caixa de comentários a este post.]



«morrem velhos
os construtores de catedrais

ao princípio deus despreza-os
por serem homens de poesia
métrica arrancada do tempo
e não soletrarem o relâmpago
da noite assombrada

por isso é que têm apenas distância
e mãos calosas
– os dedos por cunhas
entre as pedras desmoronadas
e novamente equilibradas –

o edifício é maior
do que os ventos que o derrubam

no fim deus
reconhecendo a injustiça
recebe-os como filhos pródigos
curvados dos juízos e das decisões» [p. 68]

Sábado, 14 de Janeiro de 2012

idealizo-te
na tua colheita diária
de fantasmas

despedaçados
pelas hélices centrípetas
do teu útero

[um bater de asas de libelinhas
- imaginas tu -
ou mil suspiros
dos teus lábios sem cuidados]

no final tens
- ao contrário do que sabes -
escombros espectrais
que a tua menstruação
não dissolve

Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

dias sem poesia
estes
nas superfícies rançosas
das mesas de café

quando a tempestade
- ou a deflagração do incêndio -
ficam em lembrança para um outro dia

um outro dia
que não este

e quando o bloqueio surge
nos tendões do possesso

opto por lembrar
que a tormenta e o fogo
são os subterfúgios espúrios

- opto por ficar
litania e panaceia
à mão de semear

Domingo, 13 de Novembro de 2011

queimo a ponte
por onde me alcançarias

faço-te um favor -
podia accionar o isqueiro
quando estivesses a atravessar

[podia]

construí e percorri sozinho
a ponte de madeira

[desmembrei a carnadura
e o esqueleto da minha casa

e as traves e o tabuado
que me albergavam
são agora um caminho
lasso - sem retorno]

o muito que se poderia fazer
com gasolina azul de 98 octanas

[pensam o cínico e o joker
ambos de bocas rasgadas]

por isso farei o que quero
e farei o que posso
acabado o último cigarro

Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

sei que o teu mundo
é povoado de pesadelos

- o meu também -

fixo a escuridão do quarto
à procura de confirmação

e assim fico
a admirar a beleza
e a mansetude do horrendo

na perpetuação
de tempos antigos nunca extintos

Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

ao diante
o choro de um ninho de larvas
ruidosas na minha absorta autofagia

não choro com elas
mas a contemplação faz-me vir à tona


[à tona de quê

começar o poema com a fúria
de saber o mundo aniquilando-o

porém o início é sempre o
da desconfiança das palavras

instrumentos que oscilam
entre árias e vozes guturais

instrumentos de desconhecimento
onde não surjo nem me denuncio

onde não me descubro
por mais que sejam desmembradas as letras
com as interpretações profanadas

foda-se - à tona de quê]


atrás
o choro de mil larvas senis
liquidadas na minha perene autofagia

de que serve chorar com elas
a contemplação não me faz vir à tona

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

faltas-me tu - inimigo
ninguém mais

para que possa cumprir-me
olho-te na testa - e faço-te
cuspir sangue na minha cara

com as unhas
perfuro-te o abdómen
e sinto as vísceras fedorentas

sou indestrutível
- preciso do teu sangue
para dissolver o meu sangue

e da culpa e da raiva
fecundas -
que me aplaquem de verdade

preciso da dissonância engolida
que da tua boca brote
para esquecer o que se segue

entre um morto e um ferido
fico eu aqui - a pairar
sem último sacramento