quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

8432 viúvas
passeiam-se insolúveis
como uvas
de estragada parra - de farra tramada
valem muito - não valem nada

viúvas em número de 8432
umas alheias - outras janotas com andeiras
às ilhargas - caveiras
e deleite estampado nos rostos

caminham
sem eira - nem beira
não são bem - nem mal
apenas vão acompanhadas de seu igual
num e noutro dias
destilo esperança
por toda a epiderme

recolho as gotas
e faço-as evaporar
- junto os cristais

queimo os cristais
e reduzo-os a pó
- aconchego-o na mão

passo a poalha
por uma ciranda
- anoto o que fica

guardo na algibeira
que descubro rota
- ao chão o que é chão
há o nevoeiro da complexidade
em todas as definições

sei-o cada vez mais
e sinto o bafo de maquiavel

junto à orelha saliente
em fôlegos de palavras rasantes

[entre um voo existencialista
e a profundidade impressionista

escolham os sentidos]
a verdade é que prossigo a derrota

_________

há o refúgio na complexidade
líquida das definições

digo eu que ouço um cão
a ladrar ao ouvido

profecias do fim
iminente ou idiótico

[entre os meandros do irrelevante
venha o diabo e escolha]

viro a testa e desapareço
a contentar o dia-a-dia

________

há o escudo da complexidade
- e da claridade - das definições

digo para mim que sinto
o príncipe a murmurar

invejas e proventos
do passado e do futuro

[entre o sucesso e o insucesso
escolha-se o que tiver de ser]

viro as costas e faço rumo
a arrostar o tempo

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

pássaro

pássaro de mel
pássaro de fogo

pássaro cristal
pássaro demiurgo

o teu grito atroz
é o relâmpago do degelo

[em chamas o eucalipto
em carvão o dragoeiro]

pássaro na tormenta
raio de luz que trespassa

pássaro insígnia
pássaro cruz

pássaro brisa de sal
pássaro melodia

o teu grito sibilino
nos ouvidos ecoa – lâmina

roças as tuas penas
na sempiterna arriba

[o sempiterno afago
que é do teu olhar]

água bebo – fria –
do teu ventre

[o ventre do vírus
pássaro meu invólucro]

o teu grito pulveriza
as matérias em redor

grito cristal
que é a vida minúscula

[em toda a célula
em toda a arquitectura]

o teu grito incendeia
as alamedas em síncope

o grito assassino
que dos teus lábios brota

é a origem dos esgares
que de todos os lábios fluem

o teu grito palavra
o grito poema

somam as peças do jogo
e trespassam as regras

o teu grito quebra
as sombras aladas

pássaro de musgo
pássaro líquen

pássaro azul cinza
pássaro cabo do mundo
o filantropo
exige 3 redes
sobre o abismo

o libertário
garante a tensão
da corda-bamba

o primeiro é herói
ao cair

o segundo é besta
ao ficar

sábado, 9 de fevereiro de 2013

tudo

menos a subconsciência da esterilidade
- a manhã assustadiça acossada pela luz
escondida na esquina do quarto
de garganta a fibrilhar como o insecto

retirai tudo

menos a inconsciência das pedras angulares
- a manhã a tarde a noite mescladas
aspergidas em qualquer canto da urbe terrestre
de vísceras murmurantes como o sismo

sexta-feira, 18 de maio de 2012

a viagem - a casa

Acabo de publicar o meu primeiro livro de poesia: VASCONCELOS, Dinarte, 2012, «a viagem - a casa», Funchal, Ed. Autor, 80 pp., ISBN: 978-989-20-3025-8.
É uma edição de autor; custa a módica quantia de 10 €; e alberga 94 poemas.
Conto com o vosso interesse!
[Os interessados poderão solicitá-lo através do endereço de email ou da caixa de comentários a este post.]



«morrem velhos
os construtores de catedrais

ao princípio deus despreza-os
por serem homens de poesia
métrica arrancada do tempo
e não soletrarem o relâmpago
da noite assombrada

por isso é que têm apenas distância
e mãos calosas
– os dedos por cunhas
entre as pedras desmoronadas
e novamente equilibradas –

o edifício é maior
do que os ventos que o derrubam

no fim deus
reconhecendo a injustiça
recebe-os como filhos pródigos
curvados dos juízos e das decisões» [p. 68]

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

sei que o teu mundo
é povoado de pesadelos

- o meu também -

fixo a escuridão do quarto
à procura de confirmação

e assim fico
a admirar a beleza
e a mansetude do horrendo

na perpetuação
de tempos antigos nunca extintos

terça-feira, 1 de novembro de 2011

ao diante
o choro de um ninho de larvas
ruidosas na minha absorta autofagia

não choro com elas
mas a contemplação faz-me vir à tona


[à tona de quê

começar o poema com a fúria
de saber o mundo aniquilando-o

porém o início é sempre o
da desconfiança das palavras

instrumentos que oscilam
entre árias e vozes guturais

instrumentos de desconhecimento
onde não surjo nem me denuncio

onde não me descubro
por mais que sejam desmembradas as letras
com as interpretações profanadas

foda-se - à tona de quê]


atrás
o choro de mil larvas senis
liquidadas na minha perene autofagia

de que serve chorar com elas
a contemplação não me faz vir à tona

terça-feira, 25 de outubro de 2011

como o homem sigilo
risquei um clarão no firmamento
- de tão opaco
[do levante ao poente]
gravou uma cicatriz no solo

assim o homem esquivo
cravei a trincheira no chão coalhado
- a erupção estancada
[do poente ao levante]
da vulva ressequida

sexta-feira, 16 de setembro de 2011