quinta-feira, 15 de outubro de 2026

num e noutro dias
destilo alento
por todos poros
 
recolho as gotas
faço-as evaporar
- e junto os cristais
 
queimo os cristais
faço-os em pó
- e tomo nota do grau
 
tomo uma ciranda
expurgo o pó
- e aconchego-o na mão
 
guardo-o no bolso
que está rompido
- e vai o dia pelo chão
 
neste e noutro alentos
tenho labor em engenho
por todos dias

*
* *

numa e noutra estações
ressumbro cólera
por todos orifícios
 
agarro a infeção
aperto-lhe a garganta
- e ponho o cadáver no frio
 
deixo secar o cadáver
bato-o em pedra
- e registo a pureza
 
acendo um forno
queimo mão e pedra
- e aconchego-as em água
 
levanto o diamante
como apêndice fundido
- e deito-o pelo chão
 
nesta e noutra cóleras
tenho trabalho em têmpera
por todas estações

*
* *

numa e noutra idades
derramo rancor
por todos humores 

cerco os miasmas
num alguidar
- e procuro a toalha de linho 

misturo pouco de sal
com muito de fermento
- e conto o tempo

tendo a massa
jogo-a ao borralho
- e aconchego-a ao peito

subo o pão à boca
engulo-o com cuidado
- e apanho as miúças pelo chão

neste e noutro rancores
tenho lida em levedura
por todas idades

terça-feira, 13 de outubro de 2026

maldita a carne
e o nervo que a desune

no corpo andante
de cicatrizes expiadas

traem-se duas vontades
sozinhas delas próprias

benditas as outras sortes
na gafaria sitiada

no templo contaminado
de estigmas vigiados

signo e cruz em andrajos
um lázaro em pústula

*
* *

maldita a cabeça
e a veia que a destempera

no corpo cortado
de fúrias avessas

matam-se dois pesadelos
sedentos deles próprios

benditas as outras venturas
na enxovia escrutada

na praça presumida
de crimes encobertos

letra e pelourinho na pele
um assassino em mancha

*
* *

maldito o ventre
e o humor que o resseca

no corpo dobrado
de convulsões dançantes

consomem-se dois ânimos
esfomeados deles mesmos

benditos os outros vaticínios
na manjedoura fibrosa

na fogueira escancarada
de queimadas infectas

hausto e fel na carcaça
um pobre em escamas
como se esquivar da bala lenta

excelente tema este
para teóricos do sorriso eterno amarelo
num seminário multiculturalista
- coito de alquimistas psiquiatristas astrologistas
que prescreveriam desviar o pensamento
ou sorrir para o projéctil

mas como se desviar da bala sonsa
de revólver já habituado de ferrugem
- que risca fareja calcula
e que diz - de sorriso eterno postiço -
vou-te matar

como resvalar em face do estupor da bala
quando nem os gritos abanam as paredes
do eco que a traz

o eco é a sua matéria
e o eco - como se sabe -
[a tragédia torna-se farsa]
faz ricochete - ou covil -
nos corpos inócuos

domingo, 11 de outubro de 2026

tudo

menos a inconsciência da esterilidade
- a manhã assustadiça acossada pela luz
escondida na esquina do quarto
de garganta a fibrilhar como o insecto

tudo

menos a consciência das pedras angulares
- a manhã a tarde a noite embaraçadas
aspergidas em qualquer canto da urbe
de vísceras murmurantes como o sismo
é urgente
expurgar o engano
de que a terra é quieta

existem revoluções surdas - sim -
mas a cada passagem do meu alvião 
as sementes - sedentas de minerais -
olham de volta como novelo capilar

apertemos o pulso à emergência
- o que se abate devagar 
há-de voltar com a força do terramoto

há-de voltar primeiro
mesmo que depois de todas as coisas

há-de abrir novas fissuras
para novas sementes

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

estou limpo – sucinto afinal –
de toda maledicência

sorvo-a como tornado
que a garganta enreda

[a cria de pássaro
de bico em losango]

saciado de sons guturais
a surdez da posteridade

sirvo-me depois nódoa
à mesa da aristocracia

pode ela agora distraída
degustar a seiva

que flui ácida
do meu corpo ressecado

[a progenitora de ave
de bico em tesoura]

sirvo-me de argumento estanque
idiota útil e enxuto

incontinente no dever
frouxo no devir

ao canto esquerdo
levanto-me formidável

ao canto direito 
sou corcunda enfiado

[crias e progenitoras no ninho
de bicos vindicativos]

limpo – enfim sucinto –
de toda fome

tomo cal e silva
e volto ao princípio

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

o oceano
 
suas faces de sílex
seus gumes de levadia
 
meu atavio de lastro
meu lanho de sal
 
suas vagas em procissão
seus fundos em espera
 
minha ardósia em defeso
minha palavra em escuma

*
* *

a terra
 
suas eiras de brados
seus muros de farelo 
 
minha capa de entulho
minha corda de papel
 
suas erupções em marcha
seus féretros em vigília
 
minha tela em desmancho
minha palavra em cisco

*
* *

o corpo

suas arestas de carmesim
seus cárceres de sedição
 
meu ouvido de fornalha
meu olho de maresia

suas alturas em brecha
seus baixios em espiral
 
meu retrato em resina
meu verbo em névoa

sábado, 26 de setembro de 2026

estás na margem
lanço-te os braços
 
correntes com arpões trespassam-te
para trás – digo eu
para dentro – dizes tu
 
os teus olhos como claustro
 
correntes com arpões engolem-te
para as vésperas de uma enxurrada inteira
– grita o sangue – grita a carne
 
os teus olhos como odres fendidos
 
correntes – arpões – catapultas
– diz a convicção para a consciência –
lançando muralhas de cidadelas
 
o teu corpo – armadura – dos meus detritos
 
assinatura falsificada – armas encovadas
– grita o silêncio para a voz –
forjando uma cabeça de guerra invertida
 
a tua alma – armadura – dos meus motins
 
estou nas margens
lança-me os braços

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 olha
– as mãos na medição da cara

[mantos de vergonha
estiletes de conforto]

as palmas afeiçoam-se às órbitas
e os dedos fazem tanger
as cordas das pálpebras de cera

que bela máquina – nós
– uma operação clínica
permite sempre duas intenções

– véus que duplicam
tapumes que ganham asas

que mecanismo útil – nós
– uma operação cínica
devolve sempre duas antevisões

– palavras que espiam
monstros que espreitam

as palmas aconchegam as grotas
e os dedos fazem tinir
os côncavos das têmporas de cobre

[máscaras de orgulho
alfinetes de soberba]

as mãos no varrimento da cara
– repara