sexta-feira, 9 de outubro de 2026

estou limpo – sucinto afinal –
de toda maledicência

sorvo-a como tornado
que a garganta enreda

[a cria de pássaro
de bico em losango]

saciado de sons guturais
a surdez da posteridade

sirvo-me depois nódoa
à mesa da aristocracia

pode ela agora distraída
degustar a seiva

que flui ácida
do meu corpo ressecado

[a progenitora de ave
de bico em tesoura]

sirvo-me de argumento estanque
idiota útil e enxuto

incontinente no dever
frouxo no devir

ao canto esquerdo
levanto-me formidável

ao canto direito 
sou corcunda enfiado

[crias e progenitoras no ninho
de bicos vindicativos]

limpo – enfim sucinto –
de toda fome

tomo cal e silva
e volto ao princípio

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

o oceano
 
suas faces de sílex
seus gumes de levadia
 
meu atavio de lastro
meu lanho de sal
 
suas vagas em procissão
seus fundos em espera
 
minha ardósia em defeso
minha palavra em escuma