sexta-feira, 9 de outubro de 2026

estou limpo – sucinto afinal –
de toda maledicência

sorvo-a como tornado
que a garganta enreda

[a cria de pássaro
de bico em losango]

saciado de sons guturais
a surdez da posteridade

sirvo-me depois nódoa
à mesa da aristocracia

pode ela agora distraída
degustar a seiva

que flui ácida
do meu corpo ressecado

[a progenitora de ave
de bico em tesoura]

sirvo-me de argumento estanque
idiota útil e enxuto

incontinente no dever
frouxo no devir

ao canto esquerdo
levanto-me formidável

ao canto direito 
sou corcunda enfiado

[crias e progenitoras no ninho
de bicos vindicativos]

limpo – enfim sucinto –
de toda fome

tomo cal e silva
e volto ao princípio

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

o oceano
 
suas faces de sílex
seus gumes de levadia
 
meu atavio de lastro
meu lanho de sal
 
suas vagas em procissão
seus fundos em espera
 
minha ardósia em defeso
minha palavra em escuma

sábado, 26 de setembro de 2026

estás na margem
lanço-te os braços
 
correntes com arpões trespassam-te
para trás – digo eu
para dentro – dizes tu
 
os teus olhos como claustro
 
correntes com arpões engolem-te
para as vésperas de uma enxurrada inteira
– grita o sangue – grita a carne
 
os teus olhos como odres fendidos
 
correntes – arpões – catapultas
– diz a convicção para a consciência –
lançando muralhas de cidadelas
 
o teu corpo – armadura – dos meus detritos
 
assinatura falsificada – armas encovadas
– grita o silêncio para a voz –
forjando uma cabeça de guerra invertida
 
a tua alma – armadura – dos meus motins
 
estou nas margens
lança-me os braços

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 olha
– as mãos na medição da cara

[mantos de vergonha
estiletes de conforto]

as palmas afeiçoam-se às órbitas
e os dedos fazem tanger
as cordas das pálpebras de cera

que bela máquina – nós
– uma operação clínica
permite sempre duas intenções

– véus que duplicam
tapumes que ganham asas

que mecanismo útil – nós
– uma operação cínica
devolve sempre duas antevisões

– palavras que espiam
monstros que espreitam

as palmas aconchegam as grotas
e os dedos fazem tinir
os côncavos das têmporas de cobre

[máscaras de orgulho
alfinetes de soberba]

as mãos no varrimento da cara
– repara

domingo, 16 de março de 2025

elegia a mim
que vou ali e já venho

é só o intervalo
de pensar em algo

na vã postura
por exemplo

de pensar sempre
na mesma coisa

e porque ali vou
- e venho já -

concebi uma elegia
à minha afectada pessoa

enquanto suspiro
mais um engano
o domingo traz pelo cabresto
a indolência miudinha da chuva

a espuma ressequida
do café – aqui na chávena –

é exemplo da deriva da mente
pelos trilhos em malha da chuva

o domingo agarra pelo cabelo
o nevoeiro sfumato esboçado

– isto lá fora
– e eu cá dentro
a vida dança uma valsa comigo
sou eu quem guia o passo primeiro
retoma a vida a falsa valsa comigo
e trocamos os pés pelo corpo inteiro
 
respira-me no peito e murmura
– que ansiedades possuo eu?
exaspero pela pergunta dura
– mas afinal sou indeciso eu?

em quebrando célere a valsa
diz-me rápida a vida falsa
não tens quem raivas te meça?
digo singelo – é apenas dor de cabeça

domingo, 15 de janeiro de 2023

o homem que aspira à liberdade
encoraja e desencoraja
a morte em todos os dias

sofre os abalos mudo e amarelecido

- a liberdade não dá de barato as confidências
e ocupa toda a alma entumecida


o homem que quer ser livre

não tem cara - tem esgares
não tem morada - tem a rua
não tem membros - tem selo e lacre
não tem calor nem frio - tem medo
não tem amarras - tem grilhetas de ferrugem
não tem amor e não tem filhos -

o tempo acaba sempre ali mesmo
venha e não venha
a morte de todos os dias

domingo, 5 de setembro de 2021

como se esquivar da bala lenta

excelente tema este
para os teóricos do sorriso eterno
num qualquer seminário multicultural
- um coito de alquimistas psiquiatristas astrólogos
que prescreveriam desviar o pensamento
ou sorrir para o projéctil

mas como se desviar da bala sonsa
de revólver já habituado de ferrugem
- que risca fareja calcula
e que diz - de sorriso eterno postiço -
vou-te matar

como resvalar em face do estupor da bala
quando nem os gritos fazem tremer
o eco que a traz

porque é o eco a sua substância
e o eco - como se sabe -
[a tragédia torna-se farsa]
faz ricochete
nos corpos vivos e inanimados

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

é urgente

expurgar o engano
de que a terra é quieta

existem constantes e recorrências rítmicas
- mas a cada passagem da minha bússola
as sementes da violência
- insidiosas - sedentas de minerais -
afundam mais um palmo golpeado

tomemos o pulso à emergência
- o que vai - o que se afunda
devagar
há-de voltar com a força do terramoto

há-de voltar primeiro
mesmo que depois de todas as coisas

e há-de abrir novas fissuras
para novas sementes

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

encontro espinhos em gerúndio
cravados numa folha avulsa

dentro de um dia - de um livro -
onde a humidade já se faz gérmen

«complexo de fraude»
- diz a folha

a desafiar a minha fé
de erratas e de injúrias

[há que desconfiar do poema curto
feito de espinhos e de julgamento

porque - sabe quem o sabe -
há uma faina de correcções

no salvamento de uma só expressão
- pesada de chumbos - e uma bóia ao meio

enquanto outra forma de vida não houver
esperemos - sem o engodo da fé]

[Poema publicado em Mostrengo – Antologia Poética, Caniço, Jóias de Cultura, 2019.]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

nada do que te disser
abalará o matadouro ou a fornalha

o silêncio seria uma hipótese administrativa
mas rasgo-o porque quero viver

o meu epitáfio estará sempre escrito
nas linhas que bordam a tua ferida

sempre dito nos bafos que levam
e fazem pousar as asas das cinzas

é bom que o saibamos
antes e depois dos holocaustos

se desprezarmos as palavras
tudo é transmissível – tudo se assemelha

emergem némesis siamesas
e oposições forjam-se do mesmo veio

por isso sufoco o silêncio
dos rituais servos – da burocracia funcionária

– cicatriz à tua ilharga
é chaga minha

– o que te faz flama e queda
é o que me fará recordar

[Versão de poema publicado na colectânea 70 Poemas para Adorno, Funchal, Nova Dephi, 2015.]

segunda-feira, 4 de julho de 2016

tropeçam fantasmas
no regresso do discernimento

meu regresso?
meu discernimento?

não sei

não ouvi o galo
anunciar as matinas
– como quem ergue o homem

não vi a lagartixa
cuspir nas pedras
– como quem guia o homem

não ordenei a um ermo ou a uma floresta
para se fazerem e ao seu contrário
– como quem alimenta o homem

mais além não suam deuses
nas molduras das paisagens
– como quem acredita no homem

não senti os cães
a ladrarem nas vespertinas
– como quando se iça no fim dum baraço o homem

não sei das cagarras
que destoam da noite
– como quem ri do homem

não sei

regressam fantasmas
nas exéquias do discernimento

e assim
suspendo as glândulas do conhecimento
com suspiros do abdómen

sacudo o sangue
com gargalhadas redundantes

e tropeço sempre
na minha sabedoria

tenho na retina
um brilho de lâmina
– afiada por dentro
– romba por fora

[Poema publicado na colectânea Cadernos de Santiago I, Lisboa, Âncora Editora, 2016.]

quarta-feira, 2 de março de 2016

[Fotografia de Miguel Leitão Jardim, a partir da qual foi elaborado o poema que se segue. As excelentes fotografias do Miguel podem ser vistas aqui: A Gaivota Existencialista.]

tomai uma casa
pode ser um cubo ou um labirinto com anexo
uma tenda ou uma pirâmide flutuante

uma figura
– de gramática – geométrica
torcionária
como só acontece aos lugares onde se sobe
onde se desce
– como nas idades feitas pontos cardeais
deitados à roleta dos cata-ventos

uma casa – a casa
[de sépia – de cores que se precipitam
com escadas ou alçapões riscados ou por riscar]
há-de ser vergada pelas mãos firmes do tempo
– de uma mulher – de uma criança

nela tudo se cria – tudo se desconjunta
parte-se o pão – divide-se o pão
baralham-se as mãos – tornam-se a dar

pode ter portas ou seteiras
pontos de fuga ou de vácuo
esquinas – vértices – facas – agulhas

testas rachadas quando não se repara adiante
raias de deflagração
dedos furados – casas armadas – botões cosidos

a casa – esta casa
olhai
o seu padrão de filigrana
imbutido nas rosáceas dos corações

um homem entra
– ou sai do mundo –
[isto – nesta casa – nunca é claro
seja durante a apanha de despojos
ou na vigília do rancor]
e espera
as mãos bordadas atrás das costas
o peito coberto à luz

e reconhece
– venha o que for de vir

quarta-feira, 8 de julho de 2015

não sei já o que pensar
– para saber necessita a mente de esquecer

e os espasmos eléctricos
percorrem – de pés nus –
caminhos de calhaus miúdos
ou asfaltos onde irrompem as feiteiras

deixo o saber e aposto a vida
em decalcar os contornos das coisas
e em registar – em conceber – os negativos da realidade enevoada

– ou seja – o tudo de nada

mas
a inutilidade – como a verdade ou a feiteira – não se verga
a inutilidade – como a verdade ou a pedra – não se quebra

deixo a vida e aposto a arte
– em tudo o que analiso ou vejo
contemplo apenas a lenta contradição de mim – lento

num saco bojudo – inchado
entra o mundo ruidoso – enrugado
e dele saem as minhas ideias

– ou seja – o nada de tudo

[2004; 2015]