o domingo traz pelo cabresto
a indolência miudinha da chuva
a indolência miudinha da chuva
e desce pela parede branca
como se me descesse ao ventre
como se me descesse ao ventre
[isto lá fora
e eu cá dentro]
nem a espuma ressequida
do café – aqui na chávena –
e eu cá dentro]
nem a espuma ressequida
do café – aqui na chávena –
faz pousar os olhos à deriva
e sossegar as pernas revoltas
o domingo cinge pelo pescoço
o sufoco escarninho do nevoeiro
e sossegar as pernas revoltas
o domingo cinge pelo pescoço
o sufoco escarninho do nevoeiro
e sobe pela varanda verde
como se me subisse à cabeça
como se me subisse à cabeça
[isto cá dentro
e eu lá fora]
e eu lá fora]
*
* *
a noite pede contas
ao vazio virulento do ar
e desce pelas escadas de ferro
como se me apertasse a mão
[isto cá dentro
e eu cá fora]
nem o gelo náufrago
no uísque – aqui no copo –
faz baixar os braços de atalaia
e sarar de vez a língua azeda
a noite carrega de canga
o dorso cansado do fumo
e sobe pelo pára-sol de lona
como se me largasse o peito
[isto cá fora
e eu cá dentro]
*
* *
a jornada range os dentes
ao néon baço do tecto alto
e desce pela secretária ossuda
como se me talhasse os dedos
[isto aqui dentro
e eu ali fora]
nem a metade da altura
da água – aqui na garrafa –
faz parar a enxurrada de juramentos
e sitiar os batimentos à solta
a jornada filtra pelo açaime
as pedras ressequidas do cuspo
e sobe pelo monitor murcho
como se me enlaçasse os nervos
[isto ali dentro
e eu aqui fora]