sexta-feira, 6 de novembro de 2026

o homem que quer a liberdade

esfrega coragem e covardia
na face do tempo de todos os dias

esta peleja não espera por confidências
este alfabeto não soletra sílabas surdas

o homem que quer ser livre

não tem cara – tem esgares
não tem pele – tem corrosão amarelecida
não tem mudez – tem punho
não tem corpo – tem bússola lunar
não tem assinatura – tem selo e lacre
não tem morada – tem a rua
não tem calor nem frio – tem medo
não tem amarras – tem pontos de fuga
não tem amor e não tem filhos –

o tempo acaba sempre no mesmo eu
venha – não venha
a face da morte de todos os dias

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

há o nevoeiro da complexidade
cega das definições

digo para mim que vejo
maquiavel a bufar

esquemas do poder
eminente e quebradiço

[entre ver e mandar
há escolha e não há escolha]

viro as costas e perco-me
a prosseguir a derrota

*
* *

há o refúgio da complexidade
escorregadia das definições

digo para mim que ouço
o cão a ladrar

profecias do fim
solene ou idiótico

[entre os meandros do irrelevante
venha o diabo e escolha]

viro as costas e tropeço
a amealhar o dia-a-dia

*
* *

há o escudo da complexidade
espelhada das definições

digo para mim que sinto
o príncipe a murmurar

proventos da virtude
mediana e metediça

[entre o sucesso e o insucesso
escolha-se o que tiver de ser]

viro as costas e divido-me
a arrostar o tempo

terça-feira, 3 de novembro de 2026

o domingo traz pelo cabresto
a indolência miudinha da chuva

e desce pela parede branca
como se me descesse ao ventre

[isto lá fora
e eu cá dentro]


nem a espuma mirrada
do café – aqui na chávena –

faz pousar os olhos à deriva
e sossegar as pernas revoltas


o domingo cinge pelo pescoço
o sufoco escarninho do nevoeiro

e sobe pela varanda verde
como se me subisse à cabeça

[isto cá dentro
e eu lá fora]

*
*           *

a noite pede contas
ao vazio virulento do ar

e desce pelas escadas de ferro
como se me apertasse a mão

[isto cá dentro
e eu cá fora]


nem o gelo náufrago
no uísque – aqui no copo –

faz baixar os braços de atalaia
e sarar de vez a língua azeda


a noite carrega de canga
o dorso cansado do fumo

e sobe pelo pára-sol de lona
como se me largasse o pulmão

[isto cá fora
e eu cá dentro]

*
*           *

a jornada range os dentes
ao néon baço do tecto alto

e desce pela secretária ossuda
como se me talhasse os dedos

[isto aqui dentro
e eu ali fora]


nem a metade da altura
da água – aqui na garrafa –

faz parar a enxurrada de juramentos
e sitiar os batimentos à solta


a jornada filtra pelo açaime
as pedras ressequidas do cuspo

e sobe pelo monitor murcho
como se me enlaçasse os nervos

[isto ali dentro
e eu aqui fora]

domingo, 1 de novembro de 2026

pássaro de mel
pássaro de fogo

pássaro cristal
demiurgo de cinzel

o teu grito atroz
é o clarão das fronteiras

pássaro insígnia
pássaro cruz

pássaro vento e salina
penhor e litania

o teu grito gume
nos ouvidos sibilino

a tua voz chamas
nas alamedas em síncope

mas água bebo – fria –
do teu ventre

o útero do vírus
pássaro meu invólucro

grito mineral
vida semente

em toda célula
em toda moldura

o teu grito grifo
o teu silêncio de maré

são o tremor do enigma
e os coágulos das regras

árvore e boca e lua
pássaro líquen

pássaro azul cinza
pássaro cabo do mundo

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

8432 sentenças
passeiam-se insolúveis
como nebulosas de éter
de parra estragada - de farra armada

valem tudo - valem nada

sentenças em número de algures
alheias - janotas com andeiras
uma cinta - muitas aduelas
e minguantes grafados nas caveiras

valem vendido - valem sumido

caminham e marcham
nem beira - nem mal
nem viuvez - nem escusa 
acompanhadas sós de igual

valem - línguas a bater nos dentes - valem

8 - 4 - 3 - 2 - e resto 0
em fila indiana tossidas
como cordão sanitário
de carne estragada - de alarme tramado

valem esfriado - valem calcinado

sentenças em lugares de antanho
alertas - mocreias com gretas
muitas arcas - uma joeira
e crescentes cravados nas caveiras

valem enforcado - valem aterrado

do chão ao alto
ou jorro - ou escória
ou máquina - ou falca
encobertas de si na ribalta

domingo, 25 de outubro de 2026

eu poderia dizer
200 cordas de piano forte
o afinador de bruços no suor

poderia dizer
sinónimo
o avesso do avesso do avesso

poderia dizer
roda-livre e paragem
estonteada no mesmo lugar

diria
benigno benévolo benéfico benfazejo bem-querente
as aparas que tombam das palavras que querem ser iguais

poderia dizer
a colher cai ao chão
e subtrai um batimento
ao ritmo do coração

poderia dizer
beleza
e - ainda mais importante - mentira

poderia dizer

- mas a verdade é que estou urgentemente
me borrifando - ou falhando

portanto eu digo e digo de novo
- narciso engasgado no caos

*
*             *

eu poderia dizer
1000 descidas à bigorna
o ferreiro de pulmão no fole

poderia dizer
antónimo
o sentido do sentido do sentido

poderia dizer
ignição e espiral
estancada no mesmo centro

diria
maligno malévolo maléfico malfazejo malquerente
as talhadas que sangram das palavras que competem entre si

poderia dizer
o sol cai nas folhas
e cega milhares de espelhos
na redoma da floresta

poderia falar
fealdade
e - ainda pior - necessário

poderia dizer

- mas a verdade é que estou vagarosamente
me marimbando - ou caindo

portanto eu digo e digo de novo
- ícaro embriagado na ordem

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

o benemérito
exige três redes
sobre o abismo
 
o solitário
garante a tensão
da corda-bamba
 
o primeiro
é herói ao cair
 
o segundo
é besta ao ficar
 
*
*           *
 
o confiado
ri-se do alto
de três vãos
 
o plácido
sustém o fôlego
nos degraus
 
o primeiro
é santo ao cair
 
o último
é diabo ao subir
 
*
*           *
 
três espelhos
ilibam
boca e ideia
 
e três espelhos
carregam
mão e ímpeto
 
os primeiros
são polidos ao partir
 
os segundos
são escabrosos ao rachar

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

sei que o teu mundo
é povoado de pesadelos

- o meu também -

prendo a escuridão do quarto
à procura de confirmação

e fico a admirar a beleza
e a mansetude do horrendo

no pêndulo sonâmbulo
de tempos nunca extintos

*
* *

sei que o vosso destino
é sulcado de quedas

- também eu caí -

encaro as alturas desta rua
em cata de justificação

e fico a remoer a certeza
e a surpresa da espera

na emboscada vigilante
de curvas sempre mortais

*
* *

sei que o nosso olvido
é apagado de cicatrizes

- tu e eu usamos a dor -

cravas estiletes na cabeça
em protesto de lembrança

mas fico a fechar as cortinas
e o alçapão das velharias

na casa renunciada
de crónicas nunca recordadas
adiante
o choro de um ninho de larvas
ruidosas na minha absorta autofagia

não choro com elas
– mas a contemplação traz-me à tona


[à tona de quê?

o princípio do poema – a fúria
de saber o mundo em pélago

o princípio do mundo – o cisma
de desconfiar das palavras em degelo

simétricos instrumentos – ecos
que oscilam entre árias e borbotões

abafados instrumentos – traços
onde não descubro nem denuncio

afogadas as palavras
profanado o sentido

submersas as palavras
paralisada a derrota

à tona exactamente de quê?]


atrás
o choro de larvas senis
liquidadas na minha pasmada autofagia

de que serve chorar com elas
– a contemplação não me puxa à tona

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

num e noutro dias
destilo alento
por todos poros
 
recolho as gotas
faço-as evaporar
- e junto os cristais
 
queimo os cristais
faço-os em pó
- e tomo nota do grau
 
tomo uma ciranda
expurgo o pó
- e aconchego-o na mão
 
guardo-o no bolso
que está rompido
- e vai o dia pelo chão
 
neste e noutro alentos
tenho labor em engenho
por todos dias

*
* *

numa e noutra estações
ressumbro cólera
por todos orifícios
 
agarro a infecção
aperto-lhe a garganta
- e ponho o cadáver no frio
 
deixo secar o cadáver
bato-o em pedra
- e registo a pureza
 
acendo um forno
queimo mão e pedra
- e aconchego-as em água
 
levanto o diamante
como apêndice fundido
- e deito-o pelo chão
 
nesta e noutra cóleras
tenho trabalho em têmpera
por todas estações

*
* *

numa e noutra idades
derramo rancor
por todos humores 

cerco os miasmas
num alguidar
- e procuro a toalha de linho 

misturo pouco de sal
com muito de fermento
- e conto o tempo

tendo a massa
jogo-a ao borralho
- e aconchego-a ao peito

subo o pão à boca
engulo-o com cuidado
- e apanho as miúças pelo chão

neste e noutro rancores
tenho lida em levedura
por todas idades

terça-feira, 13 de outubro de 2026

maldita a carne
e o nervo que a desune

no corpo andante
de peles repuxadas

traem-se duas vontades
sozinhas delas próprias

benditas as outras sortes
na gafaria sitiada

no templo contaminado
de estigmas em embrião

signo e cruz em andrajos
um lázaro em pústula

*
* *

maldita a cabeça
e a veia que a destempera

no corpo cortado
de fúrias em formol

matam-se dois pesadelos
sedentos deles próprios

benditas as outras venturas
na enxovia escrutada

na praça presumida
de crimes encobertos

letra e pelourinho na pele
um assassino em mancha

*
* *

maldito o ventre
e o humor que o resseca

no corpo dobrado
de convulsões dançantes

consomem-se dois ânimos
esfomeados deles mesmos

benditos os outros vaticínios
na manjedoura fibrosa

na fogueira escancarada
de cinzas em sépia

hausto e fel na carcaça
um pobre em escamas
como se esquivar da bala lenta

excelente tema este
para teóricos do sorriso eterno amarelo
num seminário multiculturalista
- coito de alquimistas psiquiatristas astrologistas
que prescreveriam desviar o pensamento
ou sorrir para o projéctil

mas como se desviar da bala sonsa
de revólver já habituado de ferrugem
- que risca fareja calcula
e que diz - de sorriso eterno postiço -
vou-te matar

como resvalar em face do estupor da bala
quando nem os gritos abanam as paredes
do eco que a traz

o eco é a sua matéria
e o eco - como se sabe -
[a tragédia torna-se farsa]
faz ricochete - ou covil -
nos corpos inócuos

domingo, 11 de outubro de 2026

tudo

menos a inconsciência da esterilidade
- a manhã assustadiça acossada pela luz
escondida na esquina do quarto
de garganta a fibrilhar como o insecto

tudo

menos a consciência das pedras angulares
- a manhã a tarde a noite embaraçadas
aspergidas em qualquer canto da urbe
de vísceras murmurantes como o sismo
é urgente
expurgar o engano
de que a terra é quieta

existem revoluções surdas - sim -
mas a cada passagem do meu alvião 
as sementes - sedentas de minerais -
olham de volta como novelo capilar

apertemos o pulso à emergência
- o que se abate devagar 
há-de voltar com a força do terramoto

há-de voltar primeiro
mesmo que depois de todas as coisas

há-de abrir novas fissuras
para novas sementes

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

estou limpo – sucinto afinal –
de toda maledicência

sorvo-a como tornado
que a garganta enreda

[a cria de pássaro
de bico em losango]

saciado de sons guturais
a surdez da posteridade

sirvo-me depois nódoa
à mesa da aristocracia

pode ela agora distraída
degustar a seiva

que flui ácida
do meu corpo gretado

[a progenitora de ave
de bico em tesoura]

sirvo-me de argumento estanque
idiota útil e enxuto

incontinente no dever
frouxo no devir

ao canto esquerdo
levanto-me formidável

ao canto direito 
sou corcunda enfiado

[crias e progenitoras no ninho
de bicos vindicativos]

limpo – enfim sucinto –
de toda fome

tomo cal e silva
e volto ao princípio