domingo, 11 de outubro de 2026

o corpo

suas arestas de carmesim
seus cárceres de sedição
 
meu ouvido de fornalha
meu olho de maresia

suas alturas em brecha
seus baixios em espiral
 
meu retrato em resina
meu verbo em névoa
a terra
 
suas eiras de brados
seus muros de farelo 
 
minha capa de entulho
minha corda de papel
 
suas erupções em marcha
seus féretros em vigília
 
minha tela em desmancho
minha palavra em cisco
tudo

menos a inconsciência da esterilidade
- a manhã assustadiça acossada pela luz
escondida na esquina do quarto
de garganta a fibrilhar como o insecto

tudo

menos a consciência das pedras angulares
- a manhã a tarde a noite mescladas
aspergidas em qualquer canto da urbe
de vísceras murmurantes como o sismo
é urgente
expurgar o engano
de que a terra é quieta

existem revoluções surdas - sim -
mas a cada passagem do meu alvião 
as sementes - sedentas de minerais -
olham de volta como novelo capilar

apertemos o pulso à emergência
- o que se abate devagar 
há-de voltar com a força do terramoto

há-de voltar primeiro
mesmo que depois de todas as coisas

há-de abrir novas fissuras
para novas sementes

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

estou limpo – sucinto afinal –
de toda maledicência

sorvo-a como tornado
que a garganta enreda

[a cria de pássaro
de bico em losango]

saciado de sons guturais
a surdez da posteridade

sirvo-me depois nódoa
à mesa da aristocracia

pode ela agora distraída
degustar a seiva

que flui ácida
do meu corpo ressecado

[a progenitora de ave
de bico em tesoura]

sirvo-me de argumento estanque
idiota útil e enxuto

incontinente no dever
frouxo no devir

ao canto esquerdo
levanto-me formidável

ao canto direito 
sou corcunda enfiado

[crias e progenitoras no ninho
de bicos vindicativos]

limpo – enfim sucinto –
de toda fome

tomo cal e silva
e volto ao princípio

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

o oceano
 
suas faces de sílex
seus gumes de levadia
 
meu atavio de lastro
meu lanho de sal
 
suas vagas em procissão
seus fundos em espera
 
minha ardósia em defeso
minha palavra em escuma

sábado, 26 de setembro de 2026

estás na margem
lanço-te os braços
 
correntes com arpões trespassam-te
para trás – digo eu
para dentro – dizes tu
 
os teus olhos como claustro
 
correntes com arpões engolem-te
para as vésperas de uma enxurrada inteira
– grita o sangue – grita a carne
 
os teus olhos como odres fendidos
 
correntes – arpões – catapultas
– diz a convicção para a consciência –
lançando muralhas de cidadelas
 
o teu corpo – armadura – dos meus detritos
 
assinatura falsificada – armas encovadas
– grita o silêncio para a voz –
forjando uma cabeça de guerra invertida
 
a tua alma – armadura – dos meus motins
 
estou nas margens
lança-me os braços

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 olha
– as mãos na medição da cara

[mantos de vergonha
estiletes de conforto]

as palmas afeiçoam-se às órbitas
e os dedos fazem tanger
as cordas das pálpebras de cera

que bela máquina – nós
– uma operação clínica
permite sempre duas intenções

– véus que duplicam
tapumes que ganham asas

que mecanismo útil – nós
– uma operação cínica
devolve sempre duas antevisões

– palavras que espiam
monstros que espreitam

as palmas aconchegam as grotas
e os dedos fazem tinir
os côncavos das têmporas de cobre

[máscaras de orgulho
alfinetes de soberba]

as mãos no varrimento da cara
– repara

domingo, 16 de março de 2025

elegia a mim
que vou ali e já venho

é só o intervalo
de pensar em algo

na vã postura
por exemplo

de pensar sempre
na mesma coisa

e porque ali vou
- e venho já -

concebi uma elegia
à minha afectada pessoa

enquanto suspiro
mais um engano
o domingo traz pelo cabresto
a indolência miudinha da chuva

a espuma ressequida
do café – aqui na chávena –

é exemplo da deriva da mente
pelos trilhos em malha da chuva

o domingo agarra pelo cabelo
o nevoeiro sfumato esboçado

– isto lá fora
– e eu cá dentro
a vida dança uma valsa comigo
sou eu quem guia o passo primeiro
retoma a vida a falsa valsa comigo
e trocamos os pés pelo corpo inteiro
 
respira-me no peito e murmura
– que ansiedades possuo eu?
exaspero pela pergunta dura
– mas afinal sou indeciso eu?

em quebrando célere a valsa
diz-me rápida a vida falsa
não tens quem raivas te meça?
digo singelo – é apenas dor de cabeça

domingo, 15 de janeiro de 2023

o homem que aspira à liberdade
encoraja e desencoraja
a morte em todos os dias

sofre os abalos mudo e amarelecido

- a liberdade não dá de barato as confidências
e ocupa toda a alma entumecida


o homem que quer ser livre

não tem cara - tem esgares
não tem morada - tem a rua
não tem membros - tem selo e lacre
não tem calor nem frio - tem medo
não tem amarras - tem grilhetas de ferrugem
não tem amor e não tem filhos -

o tempo acaba sempre ali mesmo
venha e não venha
a morte de todos os dias

domingo, 5 de setembro de 2021

como se esquivar da bala lenta

excelente tema este
para os teóricos do sorriso eterno
num qualquer seminário multicultural
- um coito de alquimistas psiquiatristas astrólogos
que prescreveriam desviar o pensamento
ou sorrir para o projéctil

mas como se desviar da bala sonsa
de revólver já habituado de ferrugem
- que risca fareja calcula
e que diz - de sorriso eterno postiço -
vou-te matar

como resvalar em face do estupor da bala
quando nem os gritos fazem tremer
o eco que a traz

porque é o eco a sua substância
e o eco - como se sabe -
[a tragédia torna-se farsa]
faz ricochete
nos corpos vivos e inanimados

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

encontro espinhos em gerúndio
cravados numa folha avulsa

dentro de um dia - de um livro -
onde a humidade já se faz gérmen

«complexo de fraude»
- diz a folha

a desafiar a minha fé
de erratas e de injúrias

[há que desconfiar do poema curto
feito de espinhos e de julgamento

porque - sabe quem o sabe -
há uma faina de correcções

no salvamento de uma só expressão
- pesada de chumbos - e uma bóia ao meio

enquanto outra forma de vida não houver
esperemos - sem o engodo da fé]

[Poema publicado em Mostrengo – Antologia Poética, Caniço, Jóias de Cultura, 2019.]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

nada do que te disser
abalará o matadouro ou a fornalha

o silêncio seria uma hipótese administrativa
mas rasgo-o porque quero viver

o meu epitáfio estará sempre escrito
nas linhas que bordam a tua ferida

sempre dito nos bafos que levam
e fazem pousar as asas das cinzas

é bom que o saibamos
antes e depois dos holocaustos

se desprezarmos as palavras
tudo é transmissível – tudo se assemelha

emergem némesis siamesas
e oposições forjam-se do mesmo veio

por isso sufoco o silêncio
dos rituais servos – da burocracia funcionária

– cicatriz à tua ilharga
é chaga minha

– o que te faz flama e queda
é o que me fará recordar

[Versão de poema publicado na colectânea 70 Poemas para Adorno, Funchal, Nova Dephi, 2015.]