domingo, 1 de março de 2026

estou limpo – sucinto afinal –
de toda maledicência
 
engulo-a como ao tornado
que a garganta arrepanha
 
[a cria de pássaro
de bico em losango]
 
trago sons grotescos
e a surdez da posteridade
 
depois sirvo-me nódoa
à mesa da aristocracia
 
pode ela distraída
degustar o suor
 
que do meu corpo
flui ácido
 
[emerge visão
após outra visão]
 
sirvo-me de argumento estanque
– idiota útil e enxuto –
 
simples no dever
frouxo ao devir
 
no entretanto peço
anuência branda
 
sobre a seiva incontinente
e a sujidade gasta
 
[desejo imagem
após outra imagem]
 
ao canto esquerdo
levanto-me formidável
 
e corcunda enfiado
ao canto direito sou
 
no fundo quero saber
o autor destas cenas
 
[a progenitora de ave
de bico em tesoura]
 
desiludido – enfim sucinto –
tomo cinza e cal
 
e vou com fome
à minha vida

sábado, 28 de fevereiro de 2026

 reparai
– as mãos à medida das caras
 
[mantos de vergonha
estiletes de reconforto]
 
palmas afeiçoadas às órbitas
e dedos que afinam pelo
diapasão das pálpebras aveludadas

que bela máquina – nós
– uma operação mecânica
permite sempre duas intenções
 
– haja para isso
outros véus de par ao alto
tapumes e colgaduras alados
 
que mecanismo útil – nós
– uma operação cínica
devolve sempre duas antevisões
 
– que sejam por isso
palavras que espiam
monstros que espreitam
há duas correntes com rebarbas que te engolem
para trás – para dentro – para a margem
– descobrem os teus olhos em claustro

nas correntes – há arpões que te trespassam
para as vésperas de uma enxurrada inteira
– descobrem os teus olhos como odres fendidos

correntes – arpões – catapultas –
lançam fileiras de muralhas de cidadelas
– descubro o teu corpo – exoesqueleto de detritos

tu – de assinatura falsificável – brasão de armas encovado
– como fundo uma cabeça de guerra invertida
– e descubro o teu endoesqueleto – confuso – à espera